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OS CINCO DEDOS DE TIKAL

Daniel Augusto Maddalena, analisa fenômenos de comportamento social e cultural que estão sob foco de interesse nas modernas análises sobre relações humanas em um mundo altamente tecnológico. Leia o artigo e aprecie sem moderação.

Foi em uma sexta-feira fria de julho que cheguei no prédio da Avenida Paulista, número 509, na Capital de São Paulo. Uma bisbilhotada no acervo da Livraria Martins Fontes fez parte do itinerário, enquanto esperava o relógio apontar às 12h00. Estava acompanhado de minha esposa e da expectativa de rever, após muitos anos, meu grande amigo, o jornalista Jayme Brener. Nesse encontro que relembrou histórias antigas de nossa amizade, fui presenteado com dois livros de autoria dele. Uma biografia do Rabino Henry Sobel – Jayme foi o ghostwriter do Rabino -, e um romance inusitado. Esse último me chamou a atenção logo de chofre e dediquei-me a lê-lo no mesmo dia. Em apenas três dias havia “devorado” o livro. Existem livros que contam boas histórias. Existem livros que nos fazem pensar. Outros ainda, nos remetem às lembranças de nossa juventude ou infância. E existem livros que conseguem, com a maestria de seu autor, fazer tudo isso ao mesmo tempo – e ainda tocar as feridas abertas, as identidades em construção, os traumas coletivos que jamais serão esquecidos. Os Cinco Dedos de Tikal, de Jayme Brener, publicado em 2019, é um desses livros. Escrito por um jornalista com currículo invejável, que se atreveu no gênero (ainda bem!), o romance atravessa as fronteiras geográficas da América Latina, as fronteiras históricas e geopolíticas de um período emblemático no mundo e ainda resgata as memórias afetivas, tangenciando os aspectos palpáveis das culturas, sabores, cheiros e manifestações que os personagens prometem – e entregam – do começo ao fim da trama. A obra articula literatura, jornalismo e história de maneira surpreendentemente fluida – e profundamente marcante. Mergulhar nas trajetórias de personagens fictícios (que poderiam muito bem serem reais), em meio aos fatos históricos detalhados e conectados em uma grande trama mundial, me fez reviver antigos relatos contados por meus pais e avós, enquanto me deliciei do começo ao fim, com citações muito familiares e intrinsicamente ligadas à minha própria história. Não posso oferecer spoiler da obra de 358 páginas, que degustei em apenas três dias de leitura frenética, mas sabe aquele livro que você começa a ler e não consegue parar? Trata-se do caso. Em uma análise crítica positiva da obra, destaco suas contribuições para o debate sobre a identidade judaica da América Latina, a relação entre a narrativa jornalística e o romance histórico, e o papel fundamental da memória coletiva na construção do presente. É, de fato, uma leitura essencial para acadêmicos, jornalistas e todos os que são interessados em literatura com propósito. Mas, para que não sobrevenha o espectro do mistério, vou oferecer snacks para degustação, - os principais que me chamaram a atenção - , além da trama magistralmente arquitetada sobre os fatos históricos: a reconstrução dos cenários cariocas, argentinos, guatemaltecos e europeus das décadas de 30/40; os detalhes da cultura frenética em ebulição no pré-guerra; citações de nomes históricos como Zippo (isso mesmo: o isqueiro), o nome de Charles “Lucky” Luciano, mafioso famoso nos EUA, ou o de André Breton, ou ainda de Benjamin “Bugsy” Siegel, outro mafioso conhecido por ser o precursor de Las Vegas (faltou dizer que ele teve uma “treta” com o famoso bateirista Gene Krupa), entre outros... ...porém, o ápice vem da comparação da trupe do romance, com L´armata Brancaleone, de Mario Monicelli. Fantástico! E chega de snacks, pois é certo que uma degustação não oferece o prazer completo do banquete, e é exatamente isso que Os Cinco Dedos de Tikal propõe imprimir como sensação aos seus leitores. Importa que você o leia!

Por: Daniel Augusto Maddalena, professor de artes, escritor, articulista, comunicador, apresentador do podcast Papo&Pizza sobre “culturas multifacetadas”.