O que está por trás do fomento cultural
O QUE ESTÁ POR TRÁS DO FOMENTO CULTURAL O lado não visto da produção cultural no Brasil
Por: Daniel Augusto Maddalena, professor de artes e história, escritor, articulista, comunicador, apresentador do podcast Papo&Pizza sobre “culturas multifacetadas”.
Os bastidores da produção cultural no Brasil para os leigos de plantão, pode parecer um grande poço sem fundo. Vamos começar do começo: como, exatamente funciona o fomento à cultura no Brasil. Se por um lado tem uma efervescência em matéria de produtos culturais, isto é, temos muita gente nova – e antiga – produzindo material cultural no espaço das artes, por outro lado os meandros e burocracias para o financiamento para projetos culturais ainda se apresenta como um grande desafio. Elaborar um bom projeto, entender como é o papel do produtor cultural no Brasil e conhecer quem decide onde vai o dinheiro da cultura, é um trabalho que deve ser desvendado pouco a pouco e, claro, tratado com todo o cuidado e atenção que estejam disponíveis. O grande problema, é que a ideologia política está impregnando os grandes editais de financiamento cultural. Mesmo que digam que não, é notória a manipulação de verbas que são destinadas a esse ou àquele projeto, a esse ou àquele artista. Se a manifestação artística não estiver muito bem alinhada com as políticas atuais de atendimento de narrativas, pode ser que grandes e bons projetos não sejam mesmo os conquistadores das melhores verbas. Ou de nenhuma verba. As sugestões aqui, sem parecer uma doutrinação enviesada, é que o produtor ou o artista busque alinhar sua arte com aquilo que está em voga no momento, no setor cultural. Ir contra a maré, não é uma estratégia muito promissora. (Comecem a gritar com raiva, os que foram descobertos nessa trama!). Para isso, observe se o momento está favorável a uma manifestação ecológica (sempre está!) – então alinhe-se com essa narrativa e crie produtos culturais que possam comunicar esse tema de forma objetiva. Não confunda meu conselho, como um conselho que quer “manipular” o jeito de se fazer arte. Ele está sendo colocado no sentido de alinhamento de sua arte – essa autoral, livre, manifesta – com o que está aí pelo mercado: a oferta de bom dinheiro em editais que proclamam as suas perspectivas sobre “o-que-o-público-tem-que-apreciar”. Se isso não é uma conduta forçada em narrativas, me explique melhor quem diz o contrário. De qualquer forma, creio que a produção autoral, na medida da possibilidade, deva sempre ser independente do viés político que teimam em impregnar na arte, desde que o mundo pé mundo. Sei – e já mencionei isso em outro artigo – que a arte deve comunicar e ser bela. Se esse binômio está contemplado e se o artista precisa sobreviver hoje, então não estou falando besteira. É óbvio que deve haver um certo alinhamento, sem que haja a perda da identidade e dos princípios que constroem a persona do artista e sua obra. O impacto social da arte independente Outro fator inequívoco nessa equação, é a conhecida desigualdade do acesso à cultura que ainda existe no Brasil. A formação de público, embora seja um fator preponderante na busca de bons projetos, ainda carece de uma sistematização dos agentes que interferem no processo. Fazer por fazer, não atrai público, não educa público, não cria público. O fazer cultura deve ser seguido de um bem elaborado projeto estratégico que leva em consideração: localidade, aspectos culturais da sociedade a ser impactada, capacidade de assimilação do público-alvo, interação com a comunidade, função social da arte, infraestrutura disponível. Não se esgotam aí, os itens que devem ser analisados, antes de se buscar o tal impacto social que a cultura poderá oferecer. Grandes shows populares atraem bastante gente, mas o que de fato fomentam no público? Antes, a indústria fonográfica – por exemplo – incentivava os grandes shows com artistas conhecidos na mídia, para vender mais discos. A venda de mais discos, transformaram públicos? Pode ser que sim, pode ser que não. A cultura gerada por esse tipo de ação transformou gerações? A música de Belchior, na voz de Elis disse que não e que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. E vai além: nossos ídolos ainda são os mesmos, e as aparências não enganam! O olhar crítico por trás da cortina do fomento cultural, é cada vez mais necessário, pois existem pessoas de boa-fé querendo impulsionar artistas e produtores, porém existem pessoas de má-fé, que querem usar verbas para atrair o que eles querem: palanques políticos. A ação contundente de grupos de ação cultural, artistas independentes, produtores, deve ser contínua e não pode ser restrita a pequenos grupos seletivos que criam guetos, cujos auspícios são somente o benefício próprio.