Cabeça de Produtor, Usina de Cultura: a efervescência do setor cultural
Cabeça de produtor, usina de Cultura. A efervescência do setor cultural.
Eu posso iniciar esse artigo, parafraseando-o com esse título. O título original é “Cabeça de Empreendedor, Usina de Ideias”, esse de um artigo de minha autoria, que há cerca de uns 20 e poucos anos atrás, repercutiu pela imprensa nacional em diversos veículos de comunicação. Primeiro, temos que abordar a economia criativa, como indicador de capacidade desse setor de empreendedorismo cultural. O “fazer a cultura” não é uma exclusividade de poucos e iluminados seres artísticos, como esses mesmos querem fazer crer em algum momento. A impressão que se tem, quando adentramos o universo da produção cultural, em especial no interior, é que caímos em um gueto exclusivista. Se o iniciante for incauto, irá se assustar com a pouca receptividade que esse setor do mercado cultural o receberá, em um primeiro momento. Como assim você quer entrar nesse clube tão seleto? Não falo de forma leviana, tampouco sem conhecer a fundo o métier. Desde os 12 anos de idade por assim dizer, milito no setor, hora com mais ênfase, hora mais afastado do miolo da patota. Mas nunca abandonei de fato a cultura ou a produção cultural. Nas áreas de música, pintura, artesanato, ilustrações, charges para jornais, produção gráfica, literatura, TV, rádio entre outras, nunca deixei de fazer um pouquinho de cada coisa, sempre observando como o impacto de minha arte atingia os espectadores. Na indústria criativa, existe um modus operandi para se profissionalizar na área cultural. Não pense você que viver de arte, de cultura é uma tarefa fácil. Não é, mas também não se trata de um bicho de sete cabeças, ou um setor restrito aos que se acham acima da média do intelecto humano. Com uma bem-orientada carreira profissional na cultura, qualquer artista, minimamente capacitado tem a chance de encontrar seu lugar ao Sol. Tenho cá, umas dicas que gostaria de compartilhar com quem quer produzir cultura no Brasil e o faço a seguir.
Produção cultural: entre a paixão e a necessidade de gestão
Não é que é assim: quero virar produtor cultural e pronto. Começo indicando que você, “candidato a”, faça uma reflexão inicial sobre seu próprio potencial. Não sou crítico de arte, para dizer o que é bom ou ruim. Digo apenas que existe arte que agrada a muitos, arte que agrada a poucos e arte que não agrada a ninguém. Afinal, a arte tem que comunicar e se a arte não agrada a ninguém ou não se presta ao seu papel de traduzir-se no binômio comunicar - e – ser - bela, ela não faz diferença em existir ou não. Toda produção cultural artística tem que ter um porquê. Então, nesse processo de auto avaliação, verifique se o seu potencial artístico cultural vai fazer cumprir essa premissa. Não se iluda com o lixo que existe por aí, como o bando de imbecis que olham para um tênis velho jogado no chão do museu e ficam ali, horas observando e tentando entender o que o “artista tentou comunicar com aquilo”. Ou a banana presa com fita adesiva na parede... tem idiota para tudo e para todo idiota tem uma receita pronta. Arte não é isso. Cultura tampouco. Veja o cenário da produção musical atual no Brasil. Melhor nem citar que determinados gêneros, nem música são. Voltando ao cerne da questão, se você identifica que sua arte pode agradar a muitos ou a poucos, siga em frente com força total produzindo o melhor, do que você sabe fazer bem. Produza muito. Avalie, Selecione. Produza mais, afinal cabeça de produtor, usina de cultura! Selecione mais ainda. É de suma importância seu senso crítico ser apurado. Se todos os artistas tivessem essa percepção, não haveria espaço para Anittas, Pablos e Oruans no mercado. Se existem, é porque o mercado compra lixo e deglute como cultura? Na verdade, o público é manipulável pela mídia e sempre o foi, mesmo que agora comece o berreiro da ala contrária ao meu modo de ver as coisas. Isso é fato e não tem discussão. Aliás, discussão em arte, importa se ela própria (a arte e a discussão) seja para fortalecer os princípios já apresentados. Em matéria de produto cultural, seu trabalho deve oferecer um impacto significativo, no público que você deseja alcançar. O sonho de Midas na arte, é somente um sonho, pois sucesso de massa nem sempre é sinônimo de coisa boa, de boa cultura, de arte refinada. Concentre-se em seu nicho e seja fiel ao que quer comunicar. A sustentabilidade na cultura, está diretamente ligada ao atendimento da satisfação do espectador de sua arte, no nicho em que você deseja atuar. As oportunidades no setor cultural aparecerão de forma gradual e natural fazendo com que o seu reconhecimento seja orgânico (não é assim que a moda de hoje indica?). Se sua cabeça virar mesmo uma usina de produção, mais e mais material será lançado no mercado e mais e mais pessoas terão contato com sua arte. Cuide, a partir daí, para que a soberba não o faça agir como muitos artistas e produtores que, pela arrogância, deixaram de fluir e ampliar seus horizontes na melhor esfera de trabalho que existe (no meu ver): o universo cultural.
Por: Daniel Augusto Maddalena, professor de artes e história, escritor, articulista, comunicador, apresentador do podcast Papo&Pizza sobre “culturas multifacetadas”.