A Produção Cultural no Interior: desafios, invisibilidade e a luta por recursos
A Produção Cultural no interior: - desafios, invisibilidade e a luta por recursos.
Produzir cultura fora do eixo, é um ato de coragem!
Ser empreendedor não é uma tarefa fácil. Ser empreendedor no interior do país, em cidades pequenas, é uma tarefa hercúlea. Mas, ser empreendedor no interior, no setor cultural é quase uma insanidade. A cada dia, estamos vendo mais e mais manifestações dos setores culturais que estão se expandindo, e acompanhamos também o interior do Brasil, que é um verdadeiro celeiro de artistas e produtores de alto quilate, mas que ainda sofrem muito, pouco conseguem avançar em seus projetos e enfrentam preconceitos dignos da Idade das Trevas. Apesar dessa invisibilidade latente, a luta continua, companheiro! A falta de uma cadeia de financiamento perene, a falta de apoio institucional e o despreparo para uma eficiente captação de recursos culturais fazem com que muitos bons projetos naufraguem, antes mesmo de saírem do papel. Existem sim, muitas barreiras para artistas do interior. As dificuldades das produções culturais e a desigualdade no acesso à cultura, são os elementos que precisam necessariamente serem abordados em uma imediata revisão das políticas públicas culturais, em especial nas pequenas cidades. A cena cultural nas cidades do interior Nasci e cresci em uma cidadezinha, no interior do Estado de São Paulo. Cultura disponível no meu tempo de menino, era cinema e os shows que os prefeitos teimavam em trazer, para apresentações escatológicas nas feiras, quermesses ou festas municipais. Quando queria ouvir boa música, recorria aos LPs de meus irmãos mais velhos. A literatura era farta em minha casa – graças a Deus e ao meu pai que foi professor de Língua Portuguesa. Pois bem... vivi essa míngua cultural, até que consegui formar uma banda (sou baterista) e pude interpretar as músicas que agradavam a mim, e a um seleto público, ávido por um canal de divertimento. Essa era a vida cultural no interior, onde nasci. Mudei para a Capital com meus 19 anos e tive um banho de cultura, acessando todos os canais possíveis e imaginários. Dediquei-me à ilustração, ao desenho e pintura e sagrei-me professor numa das mais importantes escolas de arte do Brasil: a Escola Panamericana de Artes. Convivi com grandes mestres da pintura, das artes plásticas, artistas renomados e avancei nesse meio até onde deu. Parei, no momento em que vi o tamanho da dificuldade que existia (existe ainda), para se viver da arte. Nos grandes círculos culturais, alguns poucos artistas se destacaram e puderam realmente viver do fruto de sua arte. A maioria, entretanto, obteve apoio no mecenato. Alguns mecenas obscuros impulsionaram grandes nomes de nossa música. Não pense você que para fazer sucesso, e viver da própria arte, basta talento. De talentos maravilhosos, o interior está cheio. Grandes nomes da arte, souberam aproveitar a associação do talento próprio, com oportunidades mirabolantes que surgiram à sua frente. Outros, já nasceram em berço de ouro e nunca precisaram se preocupar com financiamento. Papai era o mecenas. Mas, vamos voltar ao cerne da questão: a cultura no interior do Brasil, e por que é difícil fazer cultura fora das capitais. Um dos problemas enfrentados por produtores culturais do interior, reside na formação do público. Sim! Se não há público, para quem se manifesta o artista? Existe ainda a questão da identidade regional. Em algumas regiões do interior, a cultura regional é aflorada. Brota do chão. Em outros locais, é necessário um parto de fórceps para que se extraia uma peça, uma música, um artesanato. Nada é uniforme e essa beleza da diversidade, não pode ofuscar o principal problema que quase todos os artistas interioranos enfrentam: o resgate do valor simbólico da cultura local e suas expressões autênticas, mas que carecem do apoio das instituições, do governo, dos grandes produtores nacionais, que devem olhar com atenção para essas regiões. Vivemos o epicentro de um furacão que está se levantando no setor cultural e sabemos que existem caminhos possíveis para financiar projetos culturais no interior. Cabe agora, a quem detém tal conhecimento, compartilhar ao máximo e ajudar aos que tanto necessitam.
Por: Daniel Augusto Maddalena, professor de artes, escritor, articulista, comunicador, apresentador do podcast Papo&Pizza sobre “culturas multifacetadas”.